Touro montado por brasileiro que morreu em rodeio será mantido nas competições, nos Estados Unidos

O touro Classic Man, envolvido no acidente que matou o peão brasileiro Amadeu Campos Silva, em etapa da Professional Bull Riders (PBR), no último domingo (29/8), nos Estados Unidos, não será afastado dos rodeios. O animal foi montado 27 vezes desde 2018 e só não derrubou os peões em duas ocasiões.

“Não há indícios de que Classic Man tenha feito algo fora do comum em seu movimento de contração durante a saída. Não foi um ato de agressão. O animal estava resistindo em seu padrão normal, mas a espora de Amadeu ficou pendurada na corda do flanco e ele foi puxado para baixo do touro em um acidente estranho”, disse à Globo Rural, Andrew Giangola, VP de Comunicações Estratégicas da PBR.

Amadeu caiu após 5,31 segundos, ficou pendurado e foi pisoteado pelas patas traseiras do touro diante de 4.500 pessoas, na disputa da Velocity Tour, segunda divisão da PBR, em Fresno, Califórnia, que foi transmitida ao vivo por um canal fechado nos EUA. O peão, que faria 23 anos na última quarta-feira (1/9), ainda tentou se levantar. Foi socorrido pelos salva-vidas e pela equipe médica que acompanha as provas e levado para o Centro Médico Comunitário Regional da cidade, onde foi anunciada a morte.

Giangola diz que o acidente continua a ser investigado, mas não há previsão de mudanças no sistema de segurança que, de acordo com ele, coloca peões treinados diante de touros geneticamente criados para os rodeios. Não há indicações de que o equipamento de segurança tenha falhado ou de que o acidente poderia ter sido evitado.

O executivo da PBR não revela o valor, mas diz que todos os peões da PBR têm apólice de seguro paga pela organização, que inclui custos de hospitalização e benefícios por morte, que podem ser complementados por seguro pessoal do atleta. Giangola afirma que a PBR está oferecendo gratuitamente serviços de aconselhamento e apoio para todos atletas e funcionários que desejarem.

Segundo ele, as regras de segurança da PBR são as mesmas em todos os países onde há rodeios da entidade, o que inclui o Brasil. Os competidores são obrigados a usar capacete e colete protetor de kevlar no tórax para suportar chifradas do touro, no caso de queda. A última mudança nas regras de segurança ocorreu em 1989, após a morte do peão americano Lane Frost. Antes de Amadeu, a última morte nas arenas de rodeio da PBR nos EUA foi do também americano, Mason Lowe, em 2019.

“Na montaria em touros, lidamos com animais de uma tonelada, o que pode impactar em acidentes graves”, diz o brasileiro Adriano Moraes, tricampeão mundial da PBR (1994, 2001 e 2006), que se aposentou em 2008. “Todo esporte tem seu risco.”

O tricampeão afirma que é muito atípico a espora enroscar na corda de flanco, como ocorreu com Amadeu, peão que ele conhecia de competições no Brasil. “Ele tinha um estilo de montaria clássico e dominava todos os fundamentos.”

Marcos Abud, diretor da Liga Nacional de Rodeio (LNR), que projetou Amadeu para a PBR, também diz que todo esporte é arriscado. “Já vi jogador de futebol morrer com cabeçada.” Amadeu, aliás, gostava de jogar futebol nas horas vagas, com os outros peões em Decatur, cidade do Texas onde mora a maioria dos competidores brasileiros de rodeio, e, segundo seus colegas de time, era um meio-campista de talento.

Com experiência de mais de 30 anos em rodeios no país, Abud diz que os peões correm mais riscos nos treinos do que na competição, por não terem socorro médico à mão e, às vezes, treinar sem equipamentos de segurança. Ele diz que as regras em rodeios no Brasil seguem o modelo da PBR, mas são ainda mais severas ao exigir, por exemplo, a presença de quatro ou cinco salva-vidas na arena. O seguro de vida também é obrigatório e pago pela organização da prova.

Para Emílio Carlos dos Santos, o Kaká, diretor da associação Independentes, que promove a Festa do Peão de Barretos, o colete implantado nos rodeios brasileiros pelo modelo da PBR, assim como o capacete, ajuda, mas não evita a chifrada. Kaká, que conheceu Amadeu nos rodeios da categoria júnior, lembra que o jovem, nascido em Altair (SP), que viajava sempre acompanhado pelo pai, Flavio, era “peão da prateleira de cima.”

Adriano Moraes, que hoje é diretor da PBR Brazil, conta que sofreu várias lesões na carreira, quebrou muito ossos, mas nunca teve um acidente grave. Ele relata que, infelizmente, já viu um companheiro morrer na sua frente, na arena. “Não diria que senti mais medo ao montar novamente, mas todos ficamos abalados quando perdemos alguém próximo ou um amigo. A nossa fé é o que nos dá forças para continuar.”

Homenagem em navio

Neste sábado, 4/9, usando uma braçadeira em memória de Amadeu, os 30 melhores peões da PBR, entre eles os brasileiros José Vitor Leme, Kaique Pacheco, Dener Barbosa e João Ricardo Vieira, voltam a montar touros no evento beneficente Cowboys for a Cause (Caubóis por uma Causa), da Reserva da Força Aérea americana, que será realizado, pelo segundo ano consecutivo, na arena especial montada no convés do navio USS Lexington, em Corpus Christi, no Texas. Durante a prova, Amadeu será homenageado em um vídeo pela PBR.

A premiação de US$ 100 mil que seria distribuída aos competidores vai ser doada para a família do rapaz, que também vai receber mais US$ 100 mil da PBR, US$ 25 mil de uma parceira da entidade e o valor que será levantado pela vaquinha online aberta pela entidade de rodeios na última quinta-feira com a meta de arrecadar mais US$ 100 mil. Na tarde de sexta, a conta GoFundMe somava US$ 3.825.

Amadeu, sempre descrito como “menino bom” pelo pai, foi para os EUA em 2019 atrás do sonho de chegar à elite dos rodeios, juntar dinheiro e comprar um sítio para a família humilde no Brasil. Machucou-se, no entanto, em 2020, teve que operar os ombros e voltou a competir em 14 de agosto. Na carreira, somou US$ 42 mil.

Da redação com a Globo Rural

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