Profissionais de saúde migram para o agro e reforçam cuidados na lida do campo

A médica carioca Cynthia Maranhão colocou pela primeira vez os pés no solo de uma grande fazenda há sete anos, em Formosa (GO), quando foi conhecer as condições de trabalho dos profissionais envolvidos nas operações de colheita de uma lavoura de milho.

Cynthia, que desde a infância foi da praia e da cidade, nunca havia imaginado que um dia estaria em Formosa, distante do mar, no meio de um “oceano verde” de uma plantação de milho, na imensidão do Cerrado brasileiro, nem que trocaria o Rio de Janeiro por São Paulo.

Hoje, ela não só é líder na América Latina na gestão de saúde da Corteva Agriscience como participa da Comissão Técnica de Agronegócio da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT).

A médica lembra que a decisão de trabalhar no meio rural veio depois de dez anos no setor petrolífero, no Rio de Janeiro, e que quando recebeu a proposta de emprego estava justamente começando a crise do petróleo. O constante crescimento do agronegócio em comparação ao ramo em que ela atuava acabou pesando na escolha.

Ela diz que foi uma mudança radical, mas interessante. “Precisei aprender muita coisa nova, deparei com vários termos difíceis com os quais nunca tinha convivido, além de precisar entender todo o processo da empresa. Agora, já tem sete anos que eu estou aqui, e cada dia aprendo um pouco mais desse mundo.”

Cynthia considera a proximidade com os trabalhadores um dos aspectos mais importantes da medicina do trabalho no meio rural. “Os profissionais de saúde em contato direto com essas pessoas precisam ter uma linguagem acessível, que consiga explicar de forma simples a importância dos cuidados no dia a dia laboral. Algumas vezes, isso até pode ultrapassar o campo do trabalho, porque nossos médicos e enfermeiros acabam sendo a referência de saúde daquela comunidade.”

Alertar as pessoas sobre o uso de boné e protetor solar e para a necessidade de se hidratar durante as pausas no trabalho já era um papel importante desses profissionais, com a pandemia, eles se tornaram ainda mais necessários, diz Cynthia. Embora pessoas da área de gestão da empresa estejam trabalhando de casa, como ela própria, o agro como setor essencial não parou, e a medicina que assegura seus trabalhadores também não.

Antes da pandemia, Cynthia viajava muito para visitaras unidades da companhia, mas, agora, tudo isso é feito on-line e os profissionais de saúde a mantêm atualizada. “A gente teve de se readaptar, mas tem várias coisas que não podem parar, precisa ter alguém ali para falar sobre a importância dos EPIs, de lavar as mãos, além de continuar com os trabalhos que já fazíamos”, explica.

Ela diz que todos os protocolos e medidas adotados pela Corteva são conservadores, pois o objetivo é fazer todo o possível para proteger a saúde dos trabalhadores. E, embora o fim da pandemia possa trazer de volta algumas coisas, como a maior circulação de pessoas, a médica ressalta que nem tudo voltará a ser como antes.

“Nós nos adaptamos e percebemos o que podemos ou não fazer de casa. As visitas virtuais, por exemplo, funcionaram de uma maneira muito eficiente. Mesmo no pós-pandemia, teremos um incentivo maior ao homeoffice e à flexibilização de horários”, afirma.

Trabalhar numa atividade ligada ao agronegócio para a mato-grossense Rosilene Alves Cotrim significou um retorno para casa. Formada como auxiliar de enfermagem pela Universidade do Oeste Paulista de Presidente Prudente, cidade do interior paulista, onde morou por 21 anos, Rosilene hoje atua como segurança ocupacional em uma das fazendas do Grupo Bom Futuro, considerado o maior conglomerado agropecuário do mundo.

A trajetória que levou Rosilene à Fazenda Filadélfia, em Campo Verde (MT), não foi, no entanto, uma simples reta, como as ruas das lavouras onde agora trabalha. Antes da Filadélfia, a técnica em enfermagem exerceu atividade clínica em um centro de oncologia e em um hemocentro por mais de sete anos até voltar à sua terra natal, acompanhada do marido.

Foi há seis anos, quando se instalou em Jaciara (MT), onde nasceu, que ela decidiu cursar uma especialização técnica em enfermagem do trabalho. Com a nova formação, veio o contato com o agronegócio. Seu primeiro emprego em Mato Grosso foi na Usina Porto Seguro, que produz etanol, açúcar e bioenergia. Ficou na vaga na usina de Jaciara por dois anos e meio.

Foi então que um ex-colega, técnico em segurança do trabalho, convidou Rosilene a se candidatar a uma vaga no Grupo Bom Futuro. “Não imaginava o que era a empresa, ou sua dimensão. Nem conhecia Campo Verde, mas precisavam de alguém da minha área. Agarrei a oportunidade, fiz todo o processo, entrevista, e já estou aqui há quase três anos”, recorda.

Seu dia a dia na Fazenda Filadélfia consiste em prevenir os acidentes de trabalho. Uma das principais ferramentas é o diálogo diário de segurança (DDS), um método de conscientização dos colaboradores para a prática de atos seguros, como vestir equipamentos de proteção individual (EPIs) e manusear ferramentas de forma adequada.

“Eventualmente oferecem os primeiros socorros a algum profissional que se feriu ou passou mal, o que não tem como evitar. Mas, no geral, a rotina é bastante burocrática. Muito papel”, ela admite.

“Em atividades que lidam com maquinário pesado, como nas algodoeiras, os colaboradores precisam estar muito bem treinados. Senão, podem ser vítimas de um acidente grave”

Rosilene Alves Cotrim, segurança ocupacional
 
Embora se surpreenda até hoje com os rumos que sua vida tomou, Rosilene se diz apaixonada por sua profissão. “Ajudamos o trabalhador, conversamos com a família. É muito diferente do trabalho em clínica. Adorava o que eu fazia, mas me identifiquei na empresa. É tão bom trabalhar com a prevenção. Em vez de lidar com o sofrimento de alguém, tentamos evitá-lo. É menos doloroso.”Segundo Rosilene, os profissionais de saúde do trabalho são procurados hoje no agronegócio por contribuírem para o aumento da produtividade das empresas.“É uma visão que eu não tinha na enfermagem hospitalar. Segurança tem de caminhar junto com o trabalho. Sem isso, ficam todos muito perdidos, sem orientação. Observamos algo que de repente pode ser prejudicial hoje e tentamos fazer melhorias.” Ela faz partede uma equipe formada por um coordenador de segurança, que é engenheiro especializado, e técnicos, além de profissionais da saúde.

Da redação com a Globo Rural

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