Brasil é “inevitável” em debates ambientais apesar de Bolsonaro, diz cientista político

Para o cientista político Guilherme Casarões, professor de relações internacionais na FGV, o Brasil deve ser um líder natural nos debates sobre mudanças climáticas e aquecimento global devido à biodiversidade, aos recursos hídricos e à floresta tropical.

Ao comentar a perda de prestígio do Brasil no cenário mundial por causa das críticas à política ambiental, Casarões ressalta que os embates do governo Bolsonaro com os chineses baseiam na premissa falsa de que a China depende mais do Brasil do que o Brasil depende da China.

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva à Revista Globo Rural:

Globo Rural – O Brasil perdeu grande parte do seu prestígio internacional devido às questões ambientais e as declarações de membros do governo sobre o assunto. Ainda é possível recuperar a imagem do país no curto prazo? 

Guilherme Casarões – No curto prazo, eu não saberia dizer. Mas que a imagem é recuperável não tenho dúvidas. A comunidade internacional tem a noção de que essa confusão é uma decorrência das atitudes do governo federal. É uma postura que marcou toda a opinião pública desde quando começaram as queimadas na Amazônia, em 2019. A imprensa internacional repercutiu muito negativamente o que ocorria na Amazônia.

Inclusive, o ápice foi Joe Biden na campanha eleitoral de 2020 mencionar sua preocupação com a Amazônia como uma das grandes questões que ele priorizaria no seu governo caso fosse eleito. Então, acho que há uma percepção muito clara de que as questões que a gente está vendo hoje são ligadas ao governo Bolsonaro. Então, me parece que, diante de uma substituição do governo, vai se renovar a visão da comunidade internacional ao Brasil.

“A impressão que eu tenho é que o agro já está sob estresse político e isso fica muito visível quando se percebe que membros da bancada do agro, principalmente no Senado, já tem se desgastado com o governo”

GR – Então o Brasil pode voltar aos debates?

Casarões – Há um ponto fundamental que é o fato de o Brasil, independentemente do presidente e do governo, ser um país com muitas dotações naturais. Pela biodiversidade, pelo papel da floresta tropical, pela questão hidrológica, o país tem uma presença quase que inevitável nos debates internacionais. O Brasil é um líder ou pode ser um líder em questões ambientais. A gente viu que desde que o tema passou a ocupar o centro da agenda internacional, justamente com a realização da Conferência Rio 92 sobre o meio ambiente do planeta. O Brasil liderou não só o debate sobre a Agenda 21, declaração do Rio em 92, mas também ficamos no centro das discussões sobre o Protocolo do Kyoto e participamos ativamente das Conferências das Nações Unidas sobre o meio ambiente (COPs).

GR – A mudança de visão pode acontecer ainda neste governo?

Casarões – Eu não tenho muita expectativa de que essas mudanças de atitude vão acontecer no governo Bolsonaro. Até porque, o Ricardo Salles [ministro do Meio Ambiente] que é um dos pontos de atrito mais visíveis em com relação à questão ambiental, parece estar blindado. Então, não vejo o Bolsonaro mudando muito essa atitude a não ser que ele demita o Salles, o que não é impossível, mas o que eu acho mais complicado é que mesmo qualquer pessoa que venha substituir dificilmente vai dar uma guinada positiva na política ambiental. Se o presidente mudasse radicalmente o seu discurso e trocasse de ministro do Meio Ambiente sem ações concretas, isso não mudaria a visão da comunidade internacional.

“Acho que existe um mal-estar muito grande no governo em relação ao trabalho e às conquistas do Paulo Guedes”

GR – A perda de credibilidade afeta diretamente as exportações do agronegócio. Até que ponto o apoio do agro ao governo se sustenta? 

Casarões – O agro tem uma agenda que a meu ver independe de governos. O agro teve uma presença muito grande no governo Lula, teve uma presença enorme no governo Dilma Rousseff. Vale lembrar a relação que a senadora Katia Abreu, então ministra da Agricultura, construiu com a presidente Dilma. Kátia Abreu representa um agro mais moderno. A Tereza Cristina, atual ministra, também. A impressão que tenho é que o agro já está sob estresse político e isso fica muito visível quando se percebe que membros da bancada do agro, principalmente no Senado, já tem se desgastado com o governo, e a Kátia Abreu talvez seja hoje a grande porta-voz disso.

GR – Você mencionou a questão do apoio político. Recentemente, durante a tramitação do projeto de lei orçamentária anual, o relator, que é da Bancada Ruralista, cortou R$ 2,5 bilhões dos recursos de subvenção ao crédito rural. Seria uma manobra para pressionar o governo? 

Casarões – Acho que existe um mal-estar muito grande no governo em relação ao trabalho e às conquistas do Paulo Guedes [ministro da Economia]. Ele fez muitas promessas para recuperar a economia brasileira, mas a verdade é que o desempenho deixa muito a desejar. Tenho a impressão de que houve a percepção de que, se o agro não recorresse a uma negociação forçada, se não pesasse a mão na barganha legislativa com o governo, sairia completamente prejudicado dessas políticas. Olhando de fora me parece, sim, que ao agro está tentando barganhar, fazendo uma estratégia para tornar o governo e sobretudo o Paulo Guedes refém de uma posição política do agronegócio e principalmente dos pequenos e médios produtores. Se Bolsonaro tentar fazer uma política econômica com um certo grau maior de subvenção e interferência política nas escolhas econômicas talvez o agro tenha uma sobrevida ao lado do presidente.

GR – Em outras palavras, apoio nas ruas não significa, necessariamente, apoio político.

Casarões – Sem dúvida. A política institucional opera muito a partir de interesses e cálculos políticos de médio prazo. Acho que a gente tem dois exemplos muito evidentes disso nos últimos dois governos antes do Bolsonaro: o de Michel Temer, que teve menos de 10% de apoio popular durante todo seu mandato, mas que assegurou quase 80% de apoio parlamentar durante esse mesmo período. E a Dilma que tinha um apoio popular relativamente alto no começo do governo, mas que viu sua base política erodir antes mesmo da sua popularidade cair vertiginosamente. Então, são coisas que andam de maneira separada.

GR – Como você analisa a cisão entre setores importantes do agro. De um lado estão produtores de soja, que resistem a uma agenda ambiental, e de outro as indústrias que sofrem restrições no mercado internacional. 

Casarões – Eu acho que isso é decorrência da própria polarização da discussão ambiental. Existe um pedaço do agro mais predatório, não estou falando só do pecuarista que coloca fogo para fazer pasto na fronteira amazônica, mas existe ainda no Brasil um agro não é tão sustentável. O problema é que numa cadeia complexa de produção, todas as partes devem atender critérios de sustentabilidade, até porque isso é importante para o consumidor final, sobretudo o europeu e alguns americanos.

“Grande parte do discurso do agro alinhado ao governo Bolsonaro se baseia numa premissa falsa de que a China depende mais do Brasil do que o Brasil depende da China. Essa premissa está errada””

GR – Muitos países têm acelerado investimentos para reduzir a dependência das importações de alimentos. Até que ponto o mundo este movimento pode afetar o Brasil? 

Casarões – São duas questões diferentes que a gente tem que pensar. A primeira delas é se o modelo econômico do país é sustentável se mantendo dependente do agronegócio. Nas eleições de 2018, acho que o Ciro Gomes foi o único candidato que de maneira muito clara criticou esse modelo “agrodependente” e propôs um novo pacto industrial com o problema e a dificuldade concreta de que esse pacto industrial gera uma memória negativa por parte da população porque a gente teve uma experiência muito ruim com o novo desenvolvimentismo no governo Dilma. Então, acho que, de maneira geral, os candidatos até evitaram fazer críticas ao agro e à dependência da economia brasileira do agronegócio. E isso não foi nem algo deliberado, a gente acabou sendo levado a esse modelo de dependência do agro que muitos criticam como insustentável no longo prazo.

GR – Qual é a outra questão?

Casarões – O outro ponto dentro desse debate diz respeito à maneira como agro vai ter que se adaptar a essa nova circunstância de competição global. Porque eu acho que grande parte do discurso do agro alinhado ao governo Bolsonaro se baseia numa premissa falsa de que a China depende mais do Brasil do que o Brasil depende da China. Essa premissa está errada porque a gente vê uma transformação recente, mas muito consistente na estrutura produtiva do agro mundial. Tem regiões da Rússia que outrora eram gélidas e que hoje estão sendo usadas para plantio de soja e sobretudo trigo. A própria Arábia Saudita tem conseguido produzir, ainda que de maneira limitada, algumas commodities agrícolas. A Tanzânia e o Quênia, sobretudo Tanzânia, já vêm se transformando num exportador importante de soja e a China investe há pelo menos vinte anos na África de maneira sistemática. Eu acho que África está finalmente desabrochando e chegando àquela condição que a gente já esperava anos atrás de celeiro do mundo. Se você pega análises prospectivas de 15 anos atrás, já se falava muito disso, de que a África substituiria América Latina, e principalmente o Brasil, como celeiro global.

GR – Em relações ao agravamento das tensões no Oriente Médio, ao contrário de uma posição historicamente neutra do Brasil, o presidente e pessoas próximas a ele já fizeram e ainda fazem declarações públicas de apoio a Israel. Isso também pode afetar o futuro desses mercados? 

Casarões – Afeta principalmente porque o Brasil também liderou o mercado Halal (islâmico) durante muito tempo, ainda lidera. É um setor importantíssimo no qual o Brasil se especializou nos últimos dez anos e desde que começou o burburinho em função da mudança das embaixadas para Jerusalém [uma agenda do ex-presidente Donald Trump que muitos países acabaram aderindo, inclusive o Brasil, com Bolsonaro desde a campanha de 2018], países como Argentina e Paraguai rapidamente passam a tentar se especializar também em alguns produtos Halal para poder suprir esse mercado. Então a gente não está lidando com países e concorrentes ingênuos. Os produtores Halal têm se diversificado em outros países e são muito sensíveis a essas agendas geopolíticas. Então, a Federação das Associações Mulçumanas e Câmara de Comércio Brasil-Árabe estão realmente preocupados com essa maneira como Brasil se posiciona frente a todas essas discussões que a gente vê da violência em Israel.

GR – É aquela velha história: não existe posicionamento político sem consequência econômica… 

Casarões – Exatamente.

Da redação com o Globo Rural

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