Após prejuízos bilionários na Austrália, quais os riscos de o Brasil ter infestação de ratos?

O Brasil nunca teve uma infestação de ratos como a que está ameaçando as lavouras australianas de Novas Gales do Sul, mas o risco existe, segundo Levino José Bassi, técnico agrícola que atua na área de transferência de tecnologia da Embrapa Suínos e Aves e que responde às demandas sobre o roedor encaminhadas ao órgão por produtores desde 2004.

A principal associação agrícola do Estado mais populoso da Austrália estima que a praga pode causar um prejuízo às lavouras da safra de inverno de mais de 1 bilhão de dólares australianos (o equivalente a US$ 775 milhões ou R$ 3,9 bilhões). Segundo Levino, estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que cada rato na propriedade rural pode causar US$ 10 de prejuízo por ano.

O especialista da Embrapa diz que existem mais de 1.700 espécies de ratos no mundo, mas os que estão infestando a Austrália são os camundongos, considerados ratos domésticos, que são pequenos, se reproduzem com muita rapidez e vivem em todos os lugares. “Se tiver comida e abrigo, um casal de ratos produz 5 mil filhotes em um ano. E eles começam a procriar com apenas 40 dias.”

Levino diz que a Embrapa já chegou a receber duas ou três demandas diárias sobre como controlar ou eliminar ratos em propriedades rurais, mas o volume caiu bastante nos últimos anos porque o produtor passou a tomar mais cuidados especialmente com a armazenamento dos grãos, que são alimentos muito atrativos para os roedores, e com entulhos ou objetos em desuso deixado aos lado dos galpões e casas que podem servir de abrigo para os animais.

“Produzir milho, por exemplo, ficou muito caro. Antes, a produção era mais familiar, não envolvia máquinas, adubação ou sementes com tecnologia. Hoje, o produtor sabe que precisa armazenar bem os grãos para não correr o risco de perder até 20% de sua cara produção.”

Viralizaram na internet imagens de centenas de ratos saindo de colheitadeiras na Austrália. Uma dica do técnico da Embrapa é não deixar a colheitadeira parada muito tempo porque ela pode conter grãos que atraem os camundongos. “É recomendado ligar a máquina constantemente e fazer uma inspeção na propriedade umas duas vezes por semana para evitar ratos.”

Outras dicas para o pequeno produtor rural são não armazenar milho em espigas, usar silos de metal e manter sacos de grãos em estrados acima do chão e afastados de paredes. Levino diz que os camundongos comem muito pouco, em torno de 2 gramas por vez, mas se alimentam várias vezes ao dia.

“Um rato consome cerca de 10 gramas por dia, mas contamina até dez vezes mais alimentos e suas fezes, urina e pelo podem transmitir mais de 50 doenças para o ser humano, como tifo, peste bubônica, toxoplasmose e hantavirose.” O número de ratos estimados no Brasil passa de cinco por habitante, mas o número de doentes não é tão grande porque, geralmente, um contato simples não causa a contaminação.

Seca

Na Austrália, especialistas indicam que a superpopulação dos ratos pode ter sido causada pela seca prolongada. Levino diz que, realmente, em períodos muito prolongados de seca, o rato se aproxima mais das construções em busca de comida porque deixa de ter alimento no mato. Ele lembra que, há cerca de dois anos, houve uma infestação em Concórdia (SC) depois de uma estiagem de 30 dias.

Uma última dica do especialista da Embrapa ao produtor rural é fazer a inspeção de ratos à noite, com lanternas, já que esses animais têm hábitos noturnos. “Se conseguir ver ratos durante o dia na propriedade é porque a infestação já está alta.”

O técnico conta que começou a estudar o comportamento e os tipos de ratos ao ser desafiado por um supervisor a responder a uma demanda de um pequeno abatedouro de aves de Santa Catarina que estava prestes a perder seu selo de inspeção federal por falta de controle da população de ratos. “Comecei a ler e pesquisar sobre o assunto e hoje temos o SAC para responder às dúvidas de produtores.”

Austrália

As autoridades australianas estimam que milhões de roedores estejam nas planícies agrícolas de Nova Gales do Sul e dizem que, se a praga não for reduzida drasticamente, haverá uma crise econômica e social de grandes proporções. O risco é os ratos devorarem as culturas de inverno do Estado, como trigo, cevada e canola, antes que possam ser colhidas.

Segundo um site local, fazendeiros que já tiveram que enfrentar incêndios, enchentes e agora a seca relatam que os ratos estão invadindo as casas e telhados e que a situação se torna pior à noite, quando os camundongos se tornam ativos. Durante o dia, trechos de estradas amanhecem pontilhados de ratos esmagados na noite anterior. Há relatos de águas contaminadas, mas a maior reclamação dos agricultores é sobre o constante cheiro de urina de rato e de carne em decomposição.

O governo estadual reservou um fundo de R$ 210 milhões para apoiar os agricultores e chegou a encomendar à Índia 5 mil litros de um veneno superpoderoso e proibido, mas seu uso ainda não foi autorizado pelo governo federal porque pode matar outros animais. A esperança é que a chegada do inverno e o aumento dos predadores elimine a praga, mas os especialistas não garantem que isso vai ocorrer.

Da redação com o Globo Rural

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