Conheça a primeira mulher a assumir o comando de um moinho no Paraná

Quando Paloma Venturelli nasceu, o Moinho Globo, fundado por seu avô Ciro Venturelli, estava chegando aos 30 anos. No último dia 30 de abril, na comemoração dos 67 anos de fundação do moinho de Sertanópolis (PR), Paloma se tornou a primeira mulher a assumir o cargo de presidente da empresa.

“Acho que sou a primeira mulher a comandar um moinho no país. No Paraná, onde há 51 indústrias do setor, certamente sou a única presidente”, diz Paloma, 38 anos, que também é vice-presidente do Sindicato da Indústria do Trigo no Estado do Paraná.

Casada, mãe de duas filhas, de 6 e 12 anos, formada em administração de empresas, com MBA em Marketing, cursos em moagem nos Estados Unidos, gestão de pessoas e comércio internacional, Paloma se credenciou ao comando do Globo, empresa de 230 funcionários diretos, graças a um plano de sucessão firmado em acordo pelos acionistas em 2012, que estabeleceu a gestão profissionalizada na empresa.

Antes, ela ficou nove anos na vice-presidência, cargo que passa agora para seu primo Giancarlo Venturelli Filho. O moinho pertence a duas holdings familiares, que se sucedem no comando. O ex-presidente Giancarlo Venturelli, de 58 anos, assumiu a presidência do Conselho de Administração da empresa no lugar do pai de Paloma, Mário Venturelli. O irmão dela, Cássio, integra o conselho.

“Quando assumi a vice-presidência, senti dificuldades por ser a única mulher na direção de um moinho, que é um setor muito masculino, mas hoje já conquistei meu lugar na empresa e no sindicato”

Paloma Venturelli, presidente do Moinho Globo

Paloma, que morava em Curitiba (a 250 km de Sertanópolis), conta que não estava em seu radar a sucessão no moinho, embora tenha trabalhado na empresa da família em dois períodos anteriores, como estagiária de controle de crédito e no departamento de marketing.

“Eu queria ser design de moda. Cheguei a entrar na faculdade, mas fiquei apenas seis meses. Também cursei Direito por um ano e tive uma distribuidora de perfumes porta a porta, mas não me encontrei nessas profissões.” Paloma trabalhava como gerente de compras de uma indústria de micro-ingredientes em Curitiba quando o pai lhe disse para pensar na sucessão do moinho.

Nos últimos anos, ela aprendeu que a grande estratégia no negócio de moinho é saber comprar bem a matéria-prima. Como presidente, ela aponta como principal desafio garantir o crescimento da empresa de forma saudável.

No ano passado, o Globo registrou o faturamento recorde de R$ 271 milhões, 20% a mais do que em 2019. “O aumento se deu pelas demandas da pandemia, mas o preço do trigo também influenciou.” Segundo ela, a tonelada da matéria-prima para a indústria subiu de R$ 900 para R$ 1.600 impulsionada pelo aumento de preço do milho, já que o trigo pode ser um substituto do grão em rações paras animais, e pela valorização do dólar.

Cerca de 80% do trigo processado no moinho vêm da região e o restante é importado da Argentina. Parte da família Venturelli mantém a tradição iniciada pelo avô de cultivar trigo no Paraná e, na área da nova planta industrial totalmente automatizada, inaugurada em 2017, há uma plantação modelo de 1 hectare.

De moinho a bairro

O Moinho Globo também virou nome de bairro em Sertanópolis. A empresa deu incentivos aos funcionários para a compra de casas pelo programa Minha Casa Minha Vida em terreno vizinho à indústria. Nem todas são ocupadas hoje por funcionários, mas, segundo Paloma, a maioria dos colaboradores diretos mora no Residencial Globo. “É muito prático. Eles vêm a pé para o trabalho e basta atravessar a rua para almoçar em casa.”

Além dos 230 colaboradores diretos, o Globo tem 70 terceirizados, 120 representantes comerciais e 200 envolvidos com frete. A linha de produtos fabricados passa de cem, sendo o carro-chefe a Farinha Venturelli.  O moinho abastece os mercados do Paraná, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

“Agora, estamos abrindo mercado no Rio Grande do Sul, que é conhecido como ‘faixa de Gaza’, por ter muitos moinhos e competição.” A fábrica tem capacidade para moer 600 toneladas por dia, mas já foi desenhada para chegar a 1.000 toneladas. A expansão está prevista para 2023 ou 2024.

Mulheres na indústria

Revista Globo Rural procurou a Associação Brasileira das Indústrias de Trigo (Abitrigo) para saber se há outras mulheres com cargos de gestão em moinhos do país. A entidade, que reúne 41 associadas de um universo de quase 200 empresas, apontou quatro mulheres que já têm cargos no primeiro escalão.

São elas Eduarda Buaiz, diretora-geral e vice-presidente do Moinho Buaiz (ES); Dorci Zorzo, diretora comercial, e Dirlene Zorzo, diretora financeira do Dallas Alimentos (MS); e Maria Leonor Carlin, diretora financeira do Moinho Guaçu Mirim (SP).

O embaixador Rubens Barbosa, presidente-executivo da Abitrigo, diz que as mulheres estão ocupando cada vez mais cargos de direção no setor, como ocorre também em outros setores.

“Ter mulheres à frente da indústria do trigo é um movimento bem-vindo. Elas estão assumindo cargos executivos com muito sucesso em todos os setores e agora no nosso também”

Rubens Barbosa, presidente-executivo da Abitrigo

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Segundo Barbosa, o setor passa por um momento complicado de queda de rentabilidade devido à valorização do dólar, que bateu em 40%, ao aumento do preço do produto importado da Argentina e Estados Unidos e às altas do frete. “Os moinhos não estão repassando todos os aumentos de custos que tiveram nos últimos meses.”

Diante da importância do trigo para a alimentação humana, o embaixador ressalta que é fundamental o Brasil investir em mais pesquisa e incentivos para plantio de trigo a fim de reduzir a dependência de importação, que chega a 60% do consumo.

“A Abitrigo está empenhada nessa campanha de segurança alimentar. A pandemia mostrou claramente os riscos de o país ficar vulnerável. Temos que buscar a autossuficiência, que não significa, no entanto, reserva de mercado.”

Da redação com o Globo Rural

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