Adeus, laço e espora: uso de tecnologia reduz estresse e transforma rotina da pecuária

O chapéu de vaqueiro não nega a profissão do peão Elizeu Freitas Rodrigues, mas já faz quase uma década que o laço, a bandeira e o esporão não fazem mais parte do seu dia a dia. Desde os 14 anos trabalhando em fazendas de pecuária de corte, ele sentiu na pele as mudanças pelas quais a atividade passou nos últimos anos. “Hoje a gente aprendeu que não dá para assustar o boi, entende? É só você abrir a porteira e mostrar o que você quer que ele entende”, conta o trabalhador, de 39 anos.

Elizeu faz parte de uma nova geração de peões, cuja função vai muito além de conduzir o gado de um pasto ao outro. Na ordem do dia estão o bem-estar animal, a sanidade e, principalmente, a produtividade.

“Antigamente, a gente ia embarcar uma boiada e, quando chegava ao frigorífico, a carcaça estava cheia de hematomas. Só que no frigorífico aqueles hematomas se tornam uma carne roxa que não vai para o prato de ninguém. Então, nós tivemos de mudar o trabalho e o manejo no dia a dia para não machucar os animais”, pontua Rodrigues.

O engenheiro agrônomo e consultor do Senar Carlos Eduardo Carvalho observa que o mercado de trabalho na pecuária tem sofrido uma verdadeira transformação conforme avançam a tecnificação e a intensificação da produção nas propriedades rurais Brasil adentro.

“Essas fazendas modernas de hoje em dia precisam de pessoas que, além dos requisitos técnicos básicos da atividade, de fato consigam entregar ao proprietário informações. Essa talvez seja uma das coisas que mais estão sendo demandadas desses profissionais”, diz Carvalho, que atua diretamente no treinamento desses trabalhadores em fazendas de gado de corte e leite.

“O que percebo é que essa comunicação e essa troca diária de informações são fundamentais para que o proprietário da fazenda tenha, de fato, uma segurança para fazer um investimento. Até porque, hoje em dia, a gente sabe que as coisas não estão nada fáceis”, lembra o engenheiro agrônomo. “Há alguns anos, o trabalhador até poderia ser treinado para coletar essas informações, mas o proprietário só teria noção delas quando fosse à fazenda. Hoje, ele recebe em tempo real, pelo celular.”

O vaqueiro Elizeu Rodrigues concorda. Ele conta que os smartphones foram uma das tecnologias que mais transformaram a sua vida em campo, chegando a ser alvo de piada entre os próprios peões. “Há uns seis ou oito anos, quando saiu esse celularzinho de correr o dedo, bem pouca gente sabia mexer. O pessoal comprava, corria o dedo para lá e para cá, e aí a galera não perdoava.”

A tecnologia também facilitou a organização das informações. Antes, Elizeu anotava os dados manualmente: agora, é tudo lançado numa planilha de computador, que processa os dados em segundos, reduzindo drasticamente o tempo gasto com esse tipo de trabalho no final do dia.

“Hoje, quando acaba o serviço, terminando de passar os bois na balança, após cinco segundos a gente tem os dados sobre os pesos dos lotes todos na mão. Antigamente, eu tinha de gastar de 40 minutos a uma hora de trabalho para tirar a média um por um”, diz.

Com menos força bruta e com o manejo mais inteligente do gado, o ambiente de gritaria e estresse tanto para os animais quanto para os peões deu espaço para um cenário de harmonia constante, no qual os dois principais protagonistas da fazenda se entendem, apesar das diferenças.

“Na minha época de juventude, quando você mexia com o gado, tinha de pegar o bicho no laço, era bem diferente de hoje. Era um negócio mais bruto mesmo. Hoje, é bem mais tranquilo. Quanto menos estresse causar ao animal melhor, tanto para ele quanto para nós”, relata o veterano Edson Rodrigues de Souza, que trabalha em um confinamento em Goiás.

Com 50 anos, sendo 40 deles vividos no campo, ele afirma que os acidentes durante o manejo dos animais eram comuns antigamente. “Acho que hoje eu não consigo mais trabalhar como naquele tempo, quando a coisa era mais na força. Depois que a gente conhece como funcionam as coisas com mais facilidade, fica muito difícil você voltar atrás”, observa o vaqueiro.

Além do conforto e da segurança no trabalho, as mudanças no campo também trouxeram ganhos financeiros a esses trabalhadores. Mais bem preparados e atentos aos objetivos da propriedade, eles recebem incentivos para se atualizar em cursos e palestras, além de bonificações por desempenho atreladas a indicadores pecuários, como o ganho médio diário de peso do rebanho.

“O que a gente tem visto no campo é que você não acha um trabalhador desse nível com um salário abaixo de R$ 2 mil. O vaqueiro que chega a uma proprieda de para trabalhar, ele bate o olho e percebe o ambiente. E acho que isso tem gerado uma diferença brutal entre quem tem pessoas competentes e quem não tem”, ressalta Carvalho, do Senar. Segundo ele, do lado do pecuarista, a adoção de práticas de recursos humanos tem se tornado fundamental para reter esses profissionais.

“Esse nível de diálogo que a gente vê acontecer em fazendas que aplicam questões de gerenciamento de pessoas palpáveis, você vê que existe uma condição de retenção de funcionários qualificados muito maior do que as outras que ainda tocam da forma antiga”, completa o consultor.

Desde 2009 na mesma propriedade, o vaqueiro Elizeu Freitas Rodrigues tem consciência de que a realidade de hoje não é tão comum quanto deveria ser, motivo pelo qual ele não pensa em abandonar seu posto tão cedo – e, se o fizer, não será para retroceder nas práticas já adotadas. “Tem muito pecuarista que está lá nos anos 70 ainda e, com certeza, se eu sair daqui um dia, saio com a cabeça erguida para mudar qualquer outro lugar onde eu trabalhar”, orgulha-se o profissional.

Da redação com o Globo Rural

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