Custo de produção aumenta e preocupa criadores de peixe

A supervalorização das commodities agrícolas não está afetando apenas as cadeias produtivas das carnes bovina, de frango e suína. Composta basicamente de milho e farelo de soja, a ração para os peixes de criação praticamente dobrou de preço em um ano, de acordo com criadores.

Eles afirmam, no entanto, que, para não afetar as vendas, especialmente e períodos de maior consumo, como a Semana Santa, procuraram evitar os repasses dessa alta de custo para os consumidores, que já estão com o poder de compra reduzido em função da pandemia.

“O custo da ração da tilápia aumentou muito porque todos os ingredientes são dolarizados. Milho, farelo de soja e o premix de micronutrientes são importados. A ração, que corresponde de 65% a 70% do custo de produção da tilápia, quase dobrou de preço”, diz Mauro Nakata, produtor na região da represa de Xavantes, no sudoeste paulista.

Na indústria, que produz cerca de 100 toneladas de filé de tilápia por mês, os custos de produção subiram cerca de 35% em um ano. “Teve um repasse, porque senão inviabilizaria o negócio. Junto com o aumento do custo de ração, teve aumento da energia, combustível, matérias-primas para embalagens, que praticamente dobrou de preço”, afirma Nakata.

A empresa, que trabalha com criação, engorda, frigorífico e distribuição, alterou o perfil de clientes que atende. Antes da pandemia, entre 40% a 50% do volume da produção ia para restaurantes e a outra parte para o mercado varejista. Nos meses de maço, abril e maio do ano passado, com os restaurantes fechados, as vendas para esses estabelcimentos caíram.

Neste ano, apesar das vendas nos supermercados estarem em um ritmo que Nakata considera bom, não estão no mesmo nível de antes da pandemia. Ele teme por uma piora no cenário, tendo em vista que, mesmo funcionando em alguns momentos, muitos restaurantes estão hoje numa situação pior que a do ano passado, por falta de reserva para investimentos.

“Para quem trabalha com tilápia, a Semana Santa foi uma semana boa, mas não foi superboa. A gente torce para a situação da saúde melhorar”, destaca o empresário.

Amazonas

Maior mercado consumidor de peixes do Brasil, Manaus, capital do Amazonas, também tem sentido o reflexo da pandemia nas vendas. Durante a Semana Santa, o consumo, que já é alto por conta da boa oferta e variedade de opções, costuma dobrar. No entanto, desde que a pandemia começou, as vendas estão abaixo das expectativas.

Produtor de tambaqui e matrinchã na região metropolitana de Manaus, Luiz Elder Bonfá diz que, na Semana Santa de 2020, houve uma queda nas vendas em 20% na comparação com 2019. Este ano, a comercialização foi 35% inferior a de dois anos atrás, quando não havia pandemia.

“Aqui, apesar de tudo, somos o maior consumidor de peixe do Brasil. Por onde andar, tem gente assando peixe na rua. Mas, em relação a quando começou essa pandemia, as vendas caíram bastante. Muita gente não tá saindo de casa e não vai mais a restaurantes”, diz ele.

Ao mesmo tempo, o aumento dos custos de produção preocupa. Segundo Bonfá, o preço da saca de 25 kg de ração subiu de R$ 38 para R$ 73 em um ano. “E não conseguimos passar esse aumento todo para o consumidor, o mercado não aceitou esse reajuste. Estamos pedindo socorro”, conta.

Esta semana, o governo do Estado do Amazonas fez a aquisição de 160 toneladas de peixe de diversos criadores, incluindo Bonfá, para distribuir à população mais vulnerável. Segundo o produtor, trouxe certo alívio para os que estão em maior dificuldade.

Da redação com Globo Rural

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *